Pastoral Sobre o Momento Crucial do País e a Participação da Igreja
Há algum tempo atrás eu ouvia as notícias matinais no rádio, quando
uma, em especial causou meu espanto: o Projeto de Emenda à Constituição nº 37
(PEC-37) que retirava do Ministério Público a tarefa de investigar crimes
(inclusive a corrupção) havia sido aprovado pela Comissão de Constituição e
Justiça (CCJ) da Câmara dos Deputados. Vale ressaltar que José Genoíno, João
Paulo Cunha e Paulo Maluf (todos já condenados por corrupção ativa) fazem parte
dessa comissão. Então no mesmo dia comentei com minha esposa e perguntei: onde
está o povo brasileiro que não sai às ruas para protestar uma calamidade
dessas?
Enfim, o gigante acordou. A multidão está nas ruas, desde que o
aumento nas tarifas de ônibus foi anunciado nas principais capitais dos estados
do país. O aumento foi recuado, mas a multidão permanece nas ruas. Só há uma
conclusão a tomar: não era pelos R$ 0,20. O aumento das tarifas foi só a gota
d’água. As multidões estão revoltadas com a corrupção, com a má gestão
do dinheiro público (a copa do mundo está orçada em R$ 33 bilhões, sendo
que as três últimas copas juntas custaram menos que isso). A população percebeu
que o mesmo dinheiro que foi investido na construção dos estádios poderia ter
sido utilizado na saúde e na educação. Essas coisas eram prioritárias.
Portanto, a terceira causa das manifestações é a falta de investimentos em educação e saúde.
Qual deve ser o envolvimento da igreja nessas questões? É lícito ao
crente tomar parte em manifestações públicas como estas que estão ocorrendo
pelo Brasil?
Os governos civis foram instituídos por Deus para reger manter a
ordem e paz nas comunidades civis. Para isto, têm o poder do uso da espada
(força), da cobrança de impostos para serviço da sociedade e o poder de
legislar em prol do bem comum (Rm 13.1-7). A igreja deve então obedecer e
respeitar as autoridades. No entanto, se o Estado exigir coisas contrárias à
Palavra de Deus, os cristãos têm a obrigação de não obedecer, porque “antes, importa
obedecer a Deus do que aos homens” (At 5.29).
Também a igreja se relaciona com o Estado o âmbito da moralidade.
Dessa forma, ela tem a tarefa de se posicionar claramente, como uma voz
profética, caso o Estado não cumpra o que é devido e quando ele se desvia do
padrão aceitável de moralidade. É o caso da corrupção, do descaso com as
necessidades reais dos cidadãos, como saúde, educação e segurança. Quando o
Estado pratica a impunidade, a violência é encorajada e o crime tolerado. Os
resultados são terríveis.
A Igreja sempre se relacionou com o Estado em obediência devido ao
seu temor a Deus, mas em alguns momentos de desonestidade, imoralidade e
ditadura da iniquidade, ela se posicionou contrariamente e até lutou. Por
exemplo, os huguenotes (calvinistas
franceses) guerrearam dez vezes por sua fé na França; os calvinistas holandeses
expulsaram com a força das armas os hereges invasores espanhóis; os puritanos
ingleses decapitaram um rei por lesa patria
– algo inédito na história – além de terem derrotado as tropas do rei (que
impuseram a liturgia católica nas igrejas reformadas) no campo de batalha; os
puritanos escoceses pegaram em armas para defender a liberdade de culto
presbiteriana contra os anglicanos ingleses; e os presbiterianos estiveram na
linha de frente da revolução americana, na época das treze colônias.
Eu creio que a igreja deve assumir
algumas posições claras nesses tempos de crise. Contra a impunidade, a
idolatria, a corrupção (que está ligada ao amor ao dinheiro – idolatria), contra
a PEC 37, o PLC 122/2006 (que impõe superdireitos aos homossexuais) e a falta
de investimentos em saúde, educação e segurança. Deve, no entanto, fazer isto
com moderação e sobriedade, sem jamais apoiar o vandalismo e a violência. Deve
também evitar achincalhar as autoridades civis, o que seria uma clara
desobediência ao mandamento de Deus. Eu creio que Deus pode usar nosso
patriotismo como uma causa secundária de sua providência para o bem de nossa
nação. Mas não nos esqueçamos também de que as nossas armas são diferentes.
Ouçamos as palavras de Paulo: “Antes de tudo, pois, exorto que se use a prática
de súplicas, orações, intercessões, ações de graças, em favor de todos os
homens, em favor dos reis e de todos os que se acham investidos de autoridade,
para que vivamos vida tranquila e mansa, com toda piedade e respeito. Isto é
bom e aceitável diante de Deus, nosso Salvador” (1Tm 2.1-3; cf. 1Pe 2.11-17). Vamos
trabalhar, orar e jejuar: “Procurai
a paz da cidade para onde vos desterrei e orai por ela ao Senhor; porque na sua paz vós tereis paz”
(Jr 29.7).
Que Deus abençoe a nossa nação!
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