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30 junho 2011

MÚSICO: Profissão & Ministério

Portanto, quer comais, quer bebais ou façais outra coisa qualquer, fazei tudo para a glória de Deus.
1 Coríntios 10:31

A música tem me presenteado com a oportunidade de conviver com muitos músicos de altíssimo nível, sendo alguns deles músicos profissionais, ou seja, aqueles que foram vocacionados a fazerem da música um meio de vida, exercendo-a como profissão. Mas quando se fala de músico profissional e vida cristã, uma tensão pode vir a existir. Isto porque de um lado uma grande parte da igreja acha incompatível a profissão da música com a fé. É comum saber de igrejas que se alegram quando profissionais da saúde, educação ou justiça se convertem, mas que aconselham um músico profissional a “deixar a velha vida” para, a partir de agora, tocar para a glória de Deus no culto. Por outro lado, já soube de músicos profissionais crentes que encaram sua profissão à parte de sua fé, ou seja, se submetem a condições que podem ser até ser incompatíveis com o evangelho, mas o fazem sob o argumento de que são profissionais e têm que ganhar a vida. Neste texto pretendo fazer uma breve reflexão (assumo: lacônica) sobre o tema do músico profissional e sua vida na igreja. Espero apontar algumas pistas que amenizem tensões já existentes, ajudando tanto a igreja quanto aos músicos profissionais que são convertidos por Deus.

I. REFLEXÕES SOBRE A IGREJA E O CRENTE PROFISSIONAL DA MÚSICA
É comum encontrarmos excelentes músicos e cantores que se descobriram não nos “bailes da vida”, mas na vida da igreja. Alguns foram “convidados” a optarem entre a igreja e a profissão. Infelizmente, por falta de sabedoria de lideranças eclesiásticas, alguns findam saindo da igreja para viverem profissionalmente da música.

1. A música não precisa estar relacionada ao culto para que glorifique a Deus
A música faz parte do que conhecemos por “graça comum”. Por um “capricho” divino, a primeira referência da música na Bíblia está atrelada à família de Caim: Gênesis 4:21 – O nome de seu irmão era Jubal; este foi o pai de todos os que tocam harpa e flauta. Lógico que não se trata de um capricho. Está claro que a música é uma manifestação da graça divina para a alegria e bem estar da humanidade, mesmo daquela que não esteja sob o pacto de salvação.
Davi – o musicista e compositor mais conhecido da Bíblia – não se valeu da música apenas para o culto: 1 Samuel 16:23 – E sucedia que, quando o espírito maligno, da parte de Deus, vinha sobre Saul, Davi tomava a harpa e a dedilhava; então, Saul sentia alívio e se achava melhor, e o espírito maligno se retirava dele. Esse espírito mal era um claro julgamento de Deus sobre Saul, mas a música tocada por Davi aliviava o espírito atormentado do rei.
Tanto Jubal quanto Davi glorificaram a Deus através do dom que receberam das mãos divinas, tanto quanto um cirurgião, que não exerce sua profissão no culto solene, mas que glorifica ao exercer seu dom com maestria e destreza.

2. É preciso orientar o crente músico profissional a como viver uma nova vida
            Qualquer pessoa, seja um advogado, parlamentar, médico ou mecânico que se achegue a Deus, carecerá de discipulado para ensiná-los a viver a nova vida que Deus lhos deu. Observe o texto de 1 Coríntios 6:9-11 –  Ou não sabeis que os injustos não herdarão o reino de Deus? Não vos enganeis: nem impuros, nem idólatras, nem adúlteros, nem efeminados, nem sodomitas, 10 nem ladrões, nem avarentos, nem bêbados, nem maldizentes, nem roubadores herdarão o reino de Deus.  11 Tais fostes alguns de vós; mas vós vos lavastes, mas fostes santificados, mas fostes justificados em o nome do Senhor Jesus Cristo e no Espírito do nosso Deus. Não se trata de profissão, mas da transformação interior que implicará numa nova postura na vida profissional.
            Um músico profissional deve ser orientado tanto quanto qualquer outro crente quanto aos perigos e desafios de sua profissão, devendo receber todo o suporte espiritual para que saiba se portar no meio musical. Um Deputado Estadual não precisará abandonar a carreira parlamentar pelo fato do ambiente de seu trabalho ser repleto de transações ilícitas, mas deve estar disposto a pagar o preço por ser uma nova criatura, tanto se negando ao ilícito quanto promovendo a justiça de acordo com a Palavra.
            Apimentando um pouco mais, há igrejas que podem achar comum um crente jornalista, guarda municipal ou paramédico exercer sua profissão num desfile de carnaval. Algumas lideranças eclesiásticas chegariam a ver esses irmãos quase como mártires: sacrificados porque têm de estar naquele local pecaminoso, mas achariam inaceitável que um músico crente viesse a tocar no mesmo evento. “Ah... mas é diferente...”, argumentariam, “o músico está participando diretamente da promoção do ambiente pecaminoso”. Bom, mas e o guarda municipal? Ele está cuidando para que haja ordem a fim de que os foliões curtam a noitada (pecaminosa) com segurança! Estão em áreas diferentes, mas servindo a um propósito em comum. “Ah... mas o guarda municipal não tem escolha!”, argumentariam. Discordo! Sempre temos escolha, mesmo que isto represente um desconto no soldo ou prisão para um guarda. Por que apenas o músico deve abrir mão do cachê que receberá por seu trabalho e o guarda municipal não?
Não estou defendendo aqui que o músico deva tocar num baile carnaval ou num desfile de escola de samba. Quero apenas destacar que a Bíblia fala de atitudes que os crentes devem ter independente de sua profissão. Como profissionais, lidamos com escolhas e estas devem ser coerentes com os princípios bíblicos. Se o ambiente não for bom, não o será para ninguém: nem para o músico e nem para o garçom crentes.


3. O crente músico profissional deve exercer ministério na igreja
            Por ser uma habilidade ligada à profissão, é inevitável que associemos o ministério do músico profissional ao da música na igreja. Sem dúvida que a participação de um músico profissional no ministério de música acrescentaria muito em termos da qualidade musical da igreja. Mas assim como um médico não precisa exercer um ministério na igreja correspondente à área de saúde, um músico não precisa exercer o ministério da música, mas precisa exercer um ministério numa igreja local. Pode ser um presbítero ou diácono, presidente do conselho de missões ou outro ministério, contanto que exerça um serviço no corpo de Cristo.
            Infelizmente, algumas igrejas ainda acham que o músico profissional, por não tocar apenas “música sacra”, está desqualificado para tocar no culto. Entretanto, como crente verdadeiro, um músico não só pode exercer seu dom no ministério da música na igreja como deve exercer algum outro ministério, pois ele é membro do corpo de Cristo!


II. REFLEXÕES SOBRE O CRENTE PROFISSIONAL DA MÚSICA E A IGREJA
Imagino que a vida de um músico profissional seja cheia de pressões desde o momento em o músico opta por ela. Pela instabilidade do mercado musical, muitos pais temem que os filhos venham a passar necessidades materiais, sugerindo insistentemente que sigam carreiras mais “sólidas e estáveis” como a medicina ou advocacia, por exemplo.
Na sociedade, uma pressão muito forte é o preconceito de que todo músico profissional tem uma vida boêmia e está envolvido com álcool, drogas, noitadas e sexo. Isto é tão injusto quanto afirmar que todo pastor toma dinheiro dos fiéis, todo político é ladrão e todo advogado está envolvido em negócios escusos. Conheço músicos profissionais não crentes que tocam na noite e que sequer chegam perto do álcool. Tudo que querem é receber o cachê e ir pra casa cuidar da família.  Muitos desconhecem ainda que a profissão de músico pode ser exercida numa sala de aula ou em horas de estúdios de gravação, seja arranjando seja executando arranjos. O trabalho é duro!

1. O profissional da música não deve subestimar os riscos de sua profissão
É preciso que se diga que toda profissão tem seu lado obscuro. Mesmo não sendo considerada uma profissão, há pastores que exercem sua vocação de maneira desonesta, enganando e fazendo da fé um negócio. Há médicos legistas que burlam laudos. Há policiais que aceitam propina. Há contabilistas que fraudam balancetes. Mas isto não me permite dizer que essas profissões são imorais e ilícitas, ou que todos os que a exercem são faltos de caráter. O problema está sempre relacionado a um coração naturalmente corrupto e sem o domínio do Senhor.
O crente que é músico profissional também terá que lidar com perigos. Em alguns casos conviverá com maus profissionais que se drogam ou se valerão de seu destaque no palco para desenvolverem “casos amorosos”. Num eventual trabalho com pessoas assim, ele deve lembrar que está ali para influenciar e não para ser influenciado. Não deve “baixar a guarda” e nem se descuidar de que sua vida existe para glorificar a Deus (1 Co 10.12).

2. O profissional da música e alguns cuidados com seu ambiente de trabalho
1. Reconhecer que suas habilidades foram dadas por Deus e que deve glorificá-lo por meio dela. Sua motivação em tocar num show ou num estúdio está em fazer o melhor para que Deus fique alegre com a excelente maneira como ele está usando seu dom.
2. Lembrar-se de que é um crente acima de tudo, e que tem a missão de ser sal e luz onde quer que esteja.
3. É preciso fazer escolhas. Assim como outros profissionais, o que vive da música deve estar disposto a recusar shows ou outras propostas profissionais que firam sua consciência e os princípios das Escrituras. Assim como ser um advogado não será “carta branca” para aceitar qualquer casou ou ser um contador não será concessão para forjar balancetes, ser um músico profissional não significa que tocará todo tipo de música, em qualquer lugar e sob qualquer circunstância. Mesmo sendo uma boa proposta, se fere sua consciência, o crente músico profissional deve recusar e buscar a Deus. Por ser Fiel, Ele mostrará outro trabalho e não deixará que seu filho passe necessidade (Salmo 37.25).

3. O crente profissional da música integrado numa comunidade local
Hebreus 10:25 – Não deixemos de congregar-nos, como é costume de alguns; antes, façamos admoestações e tanto mais quanto vedes que o Dia se aproxima.
            Todo crente deve estar integrado numa comunidade local. Cumpre-me ressaltar que, por mais que Paulo abordasse em suas cartas assuntos relacionados à igreja universal, ele sempre se dirigia a uma igreja local, destacando em algumas ocasiões irmãos que congregavam nelas: Romanos 16:1:  Recomendo-vos a nossa irmã Febe, que está servindo à igreja de Cencréia; Romanos 16:3a e 5a:  Saudai Priscila e Áqüila... igualmente a igreja que se reúne na casa deles.  Isto porque o crente, servindo a uma igreja local (como Febe, no versículo acima), conviverá com irmãos, prestará contas de sua vida e será pastoreado. Discordo do “ministério itinerante” (refiro-me a crentes que não possuem vínculo algum com uma igreja local e que cada final de semana estão numa igreja diferente) ou do movimento “sem-igreja” (algumas pessoas que se dizem decepcionadas com a “instituição” e que optam por se “auto-pastorearem”, desenvolvendo sua própria espiritualidade). Biblicamente, a fé deve ser vivida de maneira comunitária-interativa e não pessoal-individualista. Mesmo Paulo, que era um plantador de igreja, permanecia um tempo vivendo e convivendo com uma igreja (Atos 20.31 – três anos em Éfeso).
            Sou sensível a músicos que, por força de profissão, precisam viajar nos finais de semana, mas isto não é razão para não ser membro de uma comunidade local. A maioria das igrejas possui cultos e atividades durante a semana que possibilitam um envolvimento e compromisso. A igreja e seu pastor credenciam o servo, da mesma forma que Paulo o fez com Febe! Isto deve ainda ser aplicado à realidade de irmãos de qualquer profissão que estejam impedidos, por motivo de trabalho, de concorrerem à igreja nos finais de semana.
           
Conclusão
Tanto a igreja quanto o músicos profissionais que têm sido salvos por Deus devem caminhar de acordo com as Escrituras. Tanto um quanto o outro devem se dispor a abrir mão de algo que defendem se não tem base Bíblica suficiente, e só o Espírito pode dar paz e levar a um denominador comum.
Este artigo está longe de abordar e resolver todos os problemas e tensões que envolvem a igreja e o crente músico profissional. Minha esperança é de haver lançado luz sobre algumas dificuldades e colaborado para um debate lúcido sobre este tema, pouco abordado mas muito polemizado. Na força do Senhor,

Heleno Guedes Montenegro Filho

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25 junho 2011

Assunto: RES: Perguntas sobre ministração do louvor

Assunto: RES: Perguntas sobre ministração do louvor


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Prezada Lenita,



Recebi seu email contendo várias perguntas sobre a "ministração" do louvor. Desculpe não ter respondido antes, foi falta de tempo mesmo.

Você me diz que é uma levita em sua igreja e que ministra o louvor durante os cultos. Sim, de fato é um privilégio poder participar do culto a Deus servindo na parte da condução dos cânticos. Eu teria um pouco de dificuldade em considerar você como levita (apesar de você ter um nome parecido, hehe), pois para mim os levitas faziam muito mais do que conduzir o louvor no templo: eles matavam e esfolavam animais, limpavam o sangue, a gordura, o excremento e os restos dos animais sacrificados e levavam uma parte para queimar fora. Além disto, arrumavam o templo, cuidavam da mobília e utensílios, etc. Se você quiser ser levita como aqueles de Israel, terá de se tornar a zeladora da igreja, rsrsrs!

Bom, vamos agora às suas peguntas. Coloquei as suas perguntas em negrito, para facilitar:

1) Até que ponto posso manifestar minhas emoções ao cantar pra Deus? Desde que sejam manifestações autênticas, sem problemas. O que incomoda muito é quando se percebe que o dirigente está fingindo, ou fazendo força para demonstrar o que não está sentindo. A maioria dos membros das igrejas não se emociona fortemente quando cultua. As emoções nem sempre estão presentes. Por isto, eles podem ficar meio desconfiados quando o dirigente do louvor, nem bem começou a primeira música, já está virando os olhos, chorando e embargando a voz. Mas, se as emoções forem legítimas, elas podem ser expressadas sem muita afetação.

2) Levantar as mãos!! Posso? É errado? Não, não é errado, o problema é que às vezes parece uma forçação de barra, algo superficial e ensaiado, que não consegue convencer o povo de que é uma expressão sincera de adoração, Portanto, recomendo sabedoria e cuidado. É preciso deixar claro para o povo que não serão as mãos levantadas que tornarão o louvor mais espiritual ou mais aceitável diante de Deus. Não há qualquer relação direta na Bíblia entre posturas físicas e espiritualidade.

3) Posso pedir para a igreja levantar as mãos em um dado momento da música, por exemplo? Veja a resposta que dei à pergunta anterior. Eu acrescentaria que pode ficar meio constrangedor pedir para a igreja levantar as mãos durante um cântico, pois tem gente que não estará sentindo nada e outros que não se sentem bem fazendo isto. A melhor coisa é deixar que seja espontâneo, que parta do povo mesmo. Gosto da regra, "não estimule; não proíba".

4) Balançar de um lado pro outro, mesmo numa canção lenta é errado? Não, desde que não vire dança ou rebolado sensual, provocando a imaginação dos rapazes, que lutam para se concentrar na letra e na música.

5) Se me emocionar e chorar? Como eu disse, se for autêntico não haveria problemas, mas lhe confesso que é constrangedor ver dirigentes de louvor chorando como se aquilo fosse expressão máxima de espiritualidade ou comunhão com Deus. Quem não chora vai se sentir carnal, frio ou não convertido. Eu evitaria.

6) Em relação à ministração entre uma música e outra, posso falar sobre a palavra, citar versículo e até explanar de uma forma muito rápida e objetiva? Poder, pode, mas se você não tiver uma preparação teológica vai acabar dizendo abobrinha, como eu ouço direto. Não é fácil falar em público e dizer coisas que realmente edifiquem. Sua função é ajudar o povo a adorar a Deus através da música. Estes sermonetes entre músicas soam às vezes forçados, pois geralmente se tenta fazer uma ponte entre o tema da música e uma passagem da Bíblia, e isso fica forçado e artificial.

7) Falar aleluia ou glória a Deus, claro que com reverência, sem gritar, por exemplo, é permitido? Não vejo problemas. Mais uma vez, todavia, é preciso ter certeza que são manifestações autênticas e não artificiais.

Lenita, o problema todo é esta superficialidade de alguns dirigentes de louvor que ficam se emocionando, chorando, revirando os olhos, gemendo lá na frente durante o louvor, e que uma vez encerrado este período, ficam do lado de fora do templo batendo papo com os componentes da banda enquanto o culto continua acontecendo. Fica óbvio para todo mundo que era apenas fingimento.

Acho que os dirigentes de louvor seriam uma bênção maior se fizessem apenas isto mesmo, dirigir o louvor, ajudando o povo a entoar os louvores a Deus. Qual o propósito destas demonstrações de êxtase e enlevo fortemente emocionais à frente da Igreja? Ajuda em quê? Não quero generalizar, pois seria injusto, claro - mas às vezes fica a impressão que é apenas uma maneira de auto-promoção. Pense nisto.

No mais, que o Senhor continue a abençoar sua vida preciosa.

Um abraço!
Augustus

[Trata-se de um email fictício, embora baseado em fatos reais]
Usado com permissão do Dr. Augustus Nicodemus Lopes, autor do texto.

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14 junho 2011

O Estrago do Velho Existencialismo na Nova Música


O Século XX conheceu filósofos comprometidos com uma cosmovisão chamada existencialismo. Só para que o leitor tenha uma idéia resumida, Jean-Paul Sartre, da França, foi um desses filósofos existencialistas. Ele dizia que a existência humana era justificada por um ato simples da vontade. Basta querer e fazer alguma coisa, e a vida terá sentido.

O problema é que essa visão não se importava com a ética em si. Por exemplo, se uma senhora idosa precisasse de ajuda para atravessar a rua e um jovem a ajudasse apoiando seu braço, seria uma atitude significativa. No entanto, se o jovem desse um cascudo em sua cabeça e mandasse ela se virar, tanto faz, também é um ato significativo, porque em ambos os casos, constatamos simples atos da vontade.

Esse tipo de existencialismo, chamado de secularista, anulou a idéia de bem ou mal, certo ou errado. A ética passou a legitimar tudo, porque se tratava de um ato da von-tade. A influência desse tipo de pensamento se espalhou e acabou penetrando as igrejas. Recentemente, a Igreja Presbiteriana dos Estados Unidos da América (PCUSA) aprovou oficialmente a ordenação de pastores(as) homossexuais e transsexuais. Os argumentos são fundamentados na mesma lógica existencialista, onde o indivíduo se torna o fator determinante do que é certo ou errado.

Infelizmente, o existencialismo tem mantido suas afiadas garras encravadas nas igrejas quando as pessoas não se importam com algum padrão doutrinário. O que im-porta é a sua intenção diante de Deus. O que vai no coração é o que interessa. Não a forma como você se conduz. Sendo assim, práticas bisonhas e esdrúxulas são justificadas pela boa intenção do adorador. Quando se apela ao princípio regulador do culto, a resposta é sempre a mesma: “a Confissão de Fé de Westminster foi relevante para a sua época e não responde às nossas questões hoje”. O problema é que a CFW interpretou as Escrituras usando o método gramático-histórico de interpretação, o que elimina fatores tendenciosos na conclusão do significado do texto. Sendo assim, ela tem valor hoje sim.

Agora perceba outra maneira do existencialismo mostrar a que veio: veja como boa parte das músicas que se cantam hoje são dominadas pelo “eu” e pelo ato da vontade do indivíduo:

Eu vejo a glória do Senhor hoje aqui
A sua mão o seu poder sobre mim
Os céus abertos hoje eu vou contemplar
O amor descer neste lugar

Eu quero ver agora o teu poder
A tua glória inundando o meu ser
Vou levantar as mãos e vou receber
Vou louvando o teu nome
Porque eu sinto o Senhor me tocar

Tem certas idéias e ensinamentos que passam despercebidos aos nossos olhos nem sempre críticos. Além do mais, a beleza inegável dos acordes, da linha melódica e dos arranjos tendem a nos envolver emocionalmente ao ponto de nos tornar enfeitiçados e nos fazer tolerar o intolerável. Por essa razão, vou comentar algumas frases da música, mas peço que o nobre leitor leia com a mente aberta para perceber certas coisas que, de repente, não percebeu enquanto cantava nos cultos.

Primeiro, repare a exagerada ênfase no “eu”: Eu vejo a glória do Senhor hoje aqui. São nove referências diretas e indiretas ao “eu” numa música de poucas palavras. Note também o caráter subjetivista da letra, ao afirmar que a glória do Senhor que ele vê é “a sua mão o seu poder” sobre si. A mão e o poder de Deus pode ser qualquer coisa: desde sentimentos e sensações puramente emocionais à persuasão sincera pela Palavra. No entanto, observe como não há qualquer precisão na descrição do fenômeno. A próxima frase carece de melhor formulação, pois a construção à luz da Palavra não faz sentido: “Os céus abertos hoje eu vou contemplar”. Essa frase conta com a liberdade poética para fazer esse tipo de afirmação; no entanto, nossa liberdade poética não nos permite fazer afirmações que absolutamente não possui respaldo bíblico. A visão do céu aberto foi apocalíptica. Somente João e Estêvão viram os céus abertos além dos que presenciaram o batismo de Jesus. Então dizer que vai ver o céu aberto no sentido de provar da ação de Deus na própria vida é importar um sentido do texto e aplicá-lo a outra situação incabível, além de forçar a barra.

Agora a prepotência do adorador se torna a marca crucial: “Eu quero ver agora o teu poder”. Além da ênfase no “eu”, conforme já descrevi antes, de onde vem essa prepotência de querer ver o poder de Deus? Isso nos lembra o reprovável desejo dos fariseus de verem a demonstração do poder de Deus. Eles eram incrédulos. Também dizer que quer ver agora o poder de Deus soa estranho depois de Jesus dizer a Tomé, que bem-aventurados são os que não viram e creram. O poder de Deus não tem que ser visto; tem que ser crido. Os fariseus pediram para Jesus fazer um sinal e ele disse que o único sinal que ele lhes daria seria o de Jonas. Isso fazia referência à sua ressurreição, ao terceiro dia, como demonstração gloriosa do poder de Deus e de sua evidente messianidade. Hoje somos conclamados a crer no Senhor Deus cujo poder ressuscitou a Cristo dentre os mortos. Prefiro a letra do Stênio Marcius, que diz: “eu quero ser, não quero ter; eu quero crer, não quero ver” (“E Se...” – do CD “Canções à Meia Noite”).

Mas a prepotência do adorador não para por aí. Mais à frente, outra frase revela a ênfase no “eu existencial”: “Vou levantar as mãos e vou receber”. Note de novo a prepotência de quem acha que Deus está obrigado a dar alguma coisa. Na melhor das hipóteses, o “eu” do discurso poderia dizer “vou levantar as mão e oferecer”. Até porque o ato de levantar as mãos na Bíblia sempre denota a oferta e não a recepção de alguma coisa. Mas o “eu” existencial é assim mesmo. Ele se importa em justificar sua existência, se importa em ser feliz recebendo coisas o tempo todo. Não é à toa que o “evangelho da prosperidade” reúne tantos fiéis em torno de líderes que prometem ouro, prata, TVs gigantes, carros sofisticados e casas “apaine-ladas”. Basta determinar, levantar as mãos para receber, que o criado-mor vai dar o que a gente quiser.

Para fechar essa análise, considere o último trecho: “Vou louvando o teu nome porque eu sinto o Senhor me tocar”. Se alguém se perguntou se poderia piorar, creio que este trecho responde bem. Esse trecho é muito infeliz porque ele coloca o ato de louvor a Deus de forma condicional. O “porque” indica uma explicação. A razão porque eu vou louvando é porque “eu sinto o Senhor me tocar”. Note o subjetivismo exacerbado mais uma vez. A ênfase no sentir é puramente subjetiva. E se o “eu” existencial do discurso não sentir o toque de Deus, seja lá o que esse toque quiser significar? Nesse caso ele não vai louvando porque não sentiu nada de extraordinário? O louvor ao Senhor é tarefa incondicional da igreja. Os Salmo 150 diz que devemos louvar a Deus pelos seus poderosos feitos e consoante a sua muita grandeza. O Salmo 34 afirma: “Bendirei ao Senhor em todo o tempo; o seu louvor estará sempre nos meus lábios”. Independente da situação, de maneira incondicional, devemos louvar ao Senhor. Mesmo quando estamos atravessando um deserto espiritual, passando por momentos de provações e até crises em nossa pequena fé, ainda assim devemos louvar, mesmo quando não sentimos nada de especial, mesmo na igreja.

Finalmente, deixe-me sugerir uma postura ideal para que nossa adoração fuja dos efeitos do existencialismo. Primeiro, tenhamos na palavra o padrão do que é certo ou errado. Ela é o critério se algo será aceitável ou não no culto que prestamos a Deus, e não a minha boa intenção. Lembremos que a verdade é objetiva e está revelada na Palavra. Segundo, evitemos essa ênfase exacerbada no “eu”. Nossa adoração junto com a congregação, na igreja, não é individual; é coletiva, comunitária. Embora alguns salmos tragam o “eu” como sujeito do discurso, muitos outros também conclamam o povo de Deus ao louvor. Vemos no NT o retrato da igreja como organismo, corpo de vários membros, mas que possuem um propósito em comum, sendo buscado por todos conjuntamente: a glória de Deus. Terceiro, concentremos mais a nossa atenção em Deus e em sua vontade. Não pensemos primeiramente em nossa satisfação; pensemos primeiramente em agradar a Deus. Nosso prazer decorrerá do fato de Deus se agradar de nosso culto primeiro. Nossa adoração será agradável a Deus a partir do momento que Cristo estiver no centro e não o “eu” existencial. Que Deus nos abençoe e nos ajude a nos humilhar em sua presença.

Pr. Charles

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01 junho 2011

O MINISTÉRIO DE MÚSICA DA IGREJA - Reflexões e Conselhos uteis a quem busca a excelência.


Em certa ocasião ouvi a pergunta: “Que qualificações espirituais um ministro de louvor deve ter?” Minha resposta: “As mesmas que se esperam de um crente verdadeiro”. Lógico que eu me fiz de desentendido. A pergunta sincera daquele irmão tinha por pressuposto que “grupos de louvor” (e principalmente os “ministros de louvor”) são formados por pessoas de uma casta superior – levitas –separados para um ministério revolucionário na Igreja. Exagero meu? Pergunte aos “ministérios” do movimento “louvor profético” e depois me diga se eu estou exagerando. Esses grupos chegam a usar chavões do tipo: “O Senhor está levantando nesses dias uma nova geração de adoradores”. Chego a lamentar pelos antigos adoradores, como meu avô, um diácono honrado que morreu servindo e adorando ao Senhor... se ele tivesse vivido um pouco mais, faria parte “da geração” de adoradores... Quanto absurdo tem sido dito nesses dias!

Estou às vésperas de completar 38 anos de idade e entrei para o grupo musical da igreja em que meu pai pastoreava com aproximadamente 11 anos. Com esse tempo de militância nesse ministério (ora como protagonista, ora como antagonista), posso afirmar que se trata de um ambiente propenso a tensões e conflitos. Ao relatar alguns exemplos disso, deixo claro que nem todos os grupos musicais de igreja possuem esses defeitos: 1. Há músicos da igreja que têm dificuldade de admitir que outro músico toque mais do que ele; ao invés de pedir para o que sabe mais possa repetir e lhe mostrar como faz, ele prefere lançar um “olhar 43” (meio de lado, já saindo, indo embora) sobre o que o outro fez, para não admitir que esteja aquém. 2. Há os que não cumprem o horário tanto para ensaiar quanto para chegar ao local do culto. 3. Você sabia que há músicos e cantores que saem do auditório da igreja na hora da pregação? Parece incrível, mas conheci alguns. 4. Infelizmente nem sempre os integrantes do grupo musical da igreja são pastoreados como deveriam ser... já soube de lideranças que não disciplinavam membros do grupo musical porque temiam ficar sem tecladista, violonista ou o vocalista. Este último ponto, claro, não é um problema inicial do grupo musical da igreja, mas uma negligência pastoral.

Ao me atrever a refletir sobre alguns problemas que já levantei e sobre outros relacionados ao Ministério de Música, o farei como integrante de um Grupo Musical, que vive seus dramas, tensões e alegrias, sem abrir mão do olhar clínico pastoral (meu ministério principal na igreja). Seguem-se alguns conselhos ao Ministério de Música como um todo, bem como a músicos e cantores particularmente:

I. Substitua o termo “grupo de louvor” por “ministério musical”, “ministério de música” ou “grupo musical”. Gosto do termo ministério apenas porque me remete a “serviço”. E minha proposta de substituir “louvor” por “musical” está no fato de que não cantamos e tocamos apenas “louvores” a Deus. O hino: “Ceifeiros da seara santa, quão pouco fraco sois, mas forte é Cristo vosso mestre, avante, avante pois”, tem por objetivo motivarmo-nos mutuamente a continuar firmes na carreira da fé, confiantes no Senhor, e não a louvar a Deus.   O “ministério musical”, assim, cuida da música na igreja, tanto a de louvor e adoração a Deus (movimento vertical) quanto a de comunhão e exortação interpessoal (movimento horizontal).

II. O Ministério de Música não é formado por levitas. Estes fizeram parte do grupo sacerdotal (Números 1:50) e a música só foi relacionada a eles num momento posterior: 1 Crônicas 15:16 – Disse Davi aos chefes dos levitas que constituíssem a seus irmãos, os cantores, para que, com instrumentos músicos, com alaúdes, harpas e címbalos se fizessem ouvir e levantassem a voz com alegria. Com vinda de Jesus e seu sacrifício na cruz, todas as funções levíticas perderam seu objeto, já que todo crente é um sacerdote. Hoje podemos nos achegar diretamente a Deus por intermédio do Sumo Sacerdote Jesus Cristo (Hebreus 10.19-20). Logo, não há mais uma “classe” interposta entre eu e Deus. A música no culto não deve ser “algo especialmente levítico”, mas apenas uma ferramenta divina para auxiliar a apreensão da música/letra no coração do homem. Deus não está fazendo uma “revolução de louvor” e nem despertando a igreja com a “adoração profética” ou “levítica”. Quando Ele quer despertar a sua igreja o faz como sempre o fez: por meio da sua Palavra (2 Reis 22.8 – 23.16).

III. Aos dirigentes dos cânticos da igreja, alguns conselhos importantes: 3.1 Seu papel principal é conduzir a igreja a cantar corretamente, atentando à entrada e à finalização da música. 3.2 O momento da música congregacional da igreja não é “o seu momento”. Ou seja, não é o lugar para se contar testemunho, causos ou mesmo pregar. Atenha-se a, no máximo, destacar o tema do cântico ou hino que será cantado. 3.3 Vocês não são animadores de auditório. Calma, não estou dizendo com isto que seja errado convidar e motivar a igreja a cantar. Refiro-me ao fato de que muitos dirigentes têm procurado reproduzir o que ouvem nos “shows golpels”, tantando repetir a performance do Fernandinho (artista gospel) no palco da igreja, por exemplo. 3.4 Não façam “segunda voz” em dueto ou outros arranjos. Como voz principal, sua função é dar segurança à congregação e não demonstrar sua capacidade de cantor. 3.5 Substituam o termo “ministro de louvor” por “dirigente dos cânticos” ou “liturgo”. 3.6 Novamente afirmo: aquele não é o “seu momento”. Há dirigentes que simplesmente fecham os olhos, levantam as mãos e a congregação se torna uma mera expectadora do momento-adorador do dirigente.

IV. Aos meus queridos músicos, mais alguns conselhos: 4.1 Desenvolvam seu potencial. Saiam da mediocridade das notas naturais e aventurem-se na floresta harmônica das dissonâncias. Lógico que estou falando de muito estudo e dedicação. Já abordei isto em outro post. 4.2 Não descuidem de sua vida com Deus. Que a beleza da harmonia musical esteja afinada à beleza do compromisso de vida com o Senhor. 4.3 Tomem cuidado com os solos. O foco deve ser o culto a Deus e não você. Não vejo problema algum de alguém receber aplausos por seu desempenho num show, mas o culto não é lugar para demonstrar tudo o que você sabe fazer com o seu instrumento. 4.4 Saibam que sempre há o que se aprender com outros músicos. Se você é violonista (como eu) não se constranja em olhar para os dedos de outro violonista quando ele estiver executando algo ao violão, pedir para ele repetir o que fez, imitar e até perguntar se está certo como você está fazendo. Esse intercâmbio fará com que você cresça tanto em musicalidade quanto em humildade. 4.5 Lembrem que o mais importante é o conjunto e não os talentos individuais. Essa disciplina individual demonstrará a maturidade do conjunto. Há grupos onde o guitarrista quer aparecer mais que o tecladista e por aí vai. Lembrem que são uma equipe!

V. Todo crente deve ser envolvido com a vida e o ministério da igreja como um todo, inclusive (e principalmente) o integrante do ministério de música da Igreja. Já convivi com músico que só aparecia aos ensaios e aos cultos de domingo à noite. Exceto um impedimento justo (estudo/trabalho/enfermidade) é dever de todo crente participar das atividades da igreja, inclusive o culto semanal. É triste ver que alguns grupos musicais tratam com desdém o culto semanal, quando na realidade deveriam se esforçar para manter o mesmo nível musical de domingo, não por constrangimento, mas espontaneamente por amor ao ministério.

VI. Selecione os que adentrarão ao grupo musical da igreja. Observe tanto a vida com Deus (testemunho) quanto a capacidade técnica (Se instrumental, instrumental. Se vocal, vocal.). Tem gente que acha que tem a vocação para o ministério de música da igreja porque é afinada e já está “arranhando” um pouco o violão. Não é bem assim. Uma vida santa sem a capacitação técnica necessária não estará apta para o ministério musical tanto quanto uma vida capacitada tecnicamente sem vida santa não estará.

VII. Trabalhe sob os cuidados de seu pastor. Oriente-se com ele sobre como organizar uma ordem temática de cânticos que será adequada para o culto solene. Submeta a ele previamente as músicas que o grupo musical está pretendendo ensinar à igreja. O pastor é capacitado para analisar a teologia da música e se é adequada ao culto. Isto evitará tensões desnecessárias. Vale lembrar que a liturgia da igreja local é de responsabilidade e supervisão do pastor.

Amados, esses conselhos vêm de um coração pastoral que está integrado no grupo musical de sua igreja local e que ama o que faz. Portanto, reflita com carinho. Que o Espírito Santo encha de santo temor o coração de todos os integrantes desse importante ministério da igreja.

Heleno Guedes Montenegro Filho

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