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03 fevereiro 2012

Sobre Programas Evangélicos Globais

O ano passado foi, no mínimo, interessante do ponto de vista do mundo “Gospel” brasileiro. Vimos nossos cantores na mídia mais do que nunca. Não apenas o Raul Gil já havia aberto as portas de seu programa de calouros para que cantores evangélicos soltassem a voz, como também a Globo, de forma inusitada, abriu oportunidades no programa do Fausto Silva e do Luciano Hulk para o Ministério Diante do Trono. A Globo inovou com a produção de um programa de final de ano em pleno domingo que contou com a participação de cantores evangélicos.
Várias pessoas têm me perguntado sobre os prós e os contras dessas oportunidades que têm surgido. Alguns até me informaram que Ana Paula Valadão seria apresentadora de um programa global semanal. Em primeiro lugar, li uma entrevista recentemente da Ana Paula informando que ela não havia recebido qualquer proposta da Globo. No entanto, se receber, pensará com carinho na possibilidade.
Agora, deixe-me pensar em algumas coisas sobre estas novidades. Ao mesmo tempo em que elas são boas oportunidades de se propagar o nome de Cristo (leia Filipenses 1 e veja como Paulo não se esforçou para impedir que pregadores falassem por interesse comercial), fazendo  com  que alguns temas da mensagem do evangelho penetrem nos lares, nem tudo são rosas. Há alguns espinhos indesejáveis. O primeiro deles é a clara intenção da Globo de lucrar com o novo “filão” do mercado brasileiro. Há um número cada vez maior de crentes no Brasil, sejam eles reformados, confessionais, tradicionais, pentecostais ou neo-pentecostais. Você pode não apenas olhar para essa classe do ponto de vista da religião, mas também como uma fatia preciosa no mercado. Basta uma caminhada pela Rua Conde de Sarzedas em São Paulo ou na Galeria Gospel de BH (pense no polo comercial evangélico de sua cidade), e você constatará o que eu estou dizendo. São milhões de consumidores de CDs, Bíblias, livros, acessórios, roupas com dizeres bíblicos, etc. Não se engane. A Globo não está interessada em divulgar a fé evangélica. Ela está interessada no dinheiro que os evangélicos podem dar a ela pelos seus contratos de publicidade e através de seu selo musical.
Outro perigo é o da promoção da superficialidade do conhecimento bíblico. Um programa como “Caldeirão do Hulk” não permitiria espaço para uma pregação da Palavra explicando, contextualizando e aplicando o texto bíblico. Além do mais, o máximo que se consegue é dizer algo do tipo “Jesus me deu paz”, “Jesus pode te fazer feliz”, veja bem, coisas essas que os budistas diriam em relação a seu ídolo, umbandistas diriam dos orixás ou os muçulmanos diriam em relação a Alá ou Maomé. Mas existe uma diferença brutal e incomparável entre Cristo e essas figuras religiosas. Jesus é o Criador de todas as coisas (Jo 1.1-3). Ele é eterno, o filho de Deus, verdadeiro Deus (1Jo 5.20), o único mediador (2Tm 2.5), aquele que é digno da nossa adoração e louvor (1Tm 6.14-16; Jd 24,25). Sendo homem, pagou pelos pecados como representante do homem; sendo Deus, fez com que seu sacrifício fosse no lugar de muitos e, assim, satisfez perfeitamente a justiça de Deus. No entanto, por causa do formato de um programa televisivo e até por causa do pluralismo vigente na sociedade atual, nada disso poderia ser dito. Ficaríamos apenas com máximas vazias de conteúdo e cheias do vácuo doutrinário.
Outro perigo é o da análise incorreta da realidade evangelical brasileira a partir do que se vê em programas assim. Quem vê Kleber Lucas na TV cantando vai pensar que é da mesma linha que o Stênio Marcius, ou Edilson Botelho. Quem fará distinção entre a linha teológica de Priscila Barreto e Eyshila? Jorge Camargo será do mesmo perfil doutrinário que Regis Danese. Hoje em dia ninguém sabe a diferença entre Igreja Presbiteriana do Brasil e uma outra igreja presbiteriana cujo “pastor” celebre bênção matrimonial entre pessoas do mesmo sexo. Quando um escândalo envolve um pastor evangélico ou uma igreja evangélica, todas as denominações sofrem com a identificação sumária. Aliás, a moda é não pensar nas diferenças, mas sentenciar: “para mim é tudo a mesma coisa!” Eu sinceramente tenho a plena convicção de que a música cristã brasileira é muito mais que Diante do Trono, Cristina Mel, Kleber Lucas, Trazendo a Arca, Vineyard, Eyshila, Marina de Oliveira, Fernanda Brum, Aline Barros e outros da mesma linha. Esses estilos mais comerciais, e que por sinal são muito parecidos (falo como quem já teve uma produção musical taxada como não comercial), não podem representar ou resumir a música cristã brasileira. É preciso falar também de Daniel Maia, Stênio Marcius, Edilson Botelho, Jorge Camargo, João Alexandre, Guilherme Kerr, Sérgio Leoto, Gerson Borges, Nelson Bomilcar, Glauber Plaça, Diego Venâncio, Jader Gudin, Gladir Cabral, Tiago Vianna, Ivan Melo, Davi Werner, Hildemar Falcão, Índio Mesquita, Carlinhos Veiga, Expresso Luz, Hadassa (de Recife), Iclayber, Fabinho Silva, Cíntia e Sylvia, Carlos Sider, Gerson e Andréa, Cristian Peticov, Cláudio Rocha, Sérgio e Marivone, Samuel Tito... (me perdoem aqueles cujos nomes não foram citados, mas isso não importa tanto; seus nomes estão arrolados no livro da vida do Cordeiro morto antes da fundação do mundo e é isso o que importa de fato).
Concluindo esta breve reflexão, pergunto: pode ser uma coisa boa? Sim, pode, mesmo porque o que importa é que o nome de Jesus seja proclamado, como disse Paulo em Filipenses 1. No entanto, é triste ver como pessoas e instituições voltadas para o lucro fazem de tudo para conseguirem uns cascalhos, até mesmo dar espaço àquilo que tolheu por toda a história. Convenhamos: quem é que sempre divulgou o misticismo, o comportamento libertino (BBB que o diga), o catolicismo, a espiritismo, o esoterismo, o budismo e até o islamismo em uma novela, mas jamais falou a verdade sobre a igreja cristã e o povo genuinamente evangélico? (Exceto numa sequência de cinco reportagens em horário nobre). Então, não solte fogos de alegria porque alguém apareceu na Globo cantando o nome de Jesus. Antes, conheça melhor a sua Palavra e permaneça nele. Adore a Deus somente e não a ídolos fabricados para que você dependa deles para sentir-se satisfeito. Adore a Deus somente e não a ídolos evangélicos televisivos. Satisfaça-se somente em Deus e assim você dará toda a glória somente a ele. Procure conhecer não somente aquilo que vem da indústria musical, fabricado em série, baseado em pesquisas de mercado. Não seja manipulado. Ouça também quem quer te fazer pensar. Ouça a quem quer ensinar a Bíblia com profundidade, criatividade e beleza poética. Afinal, somos ou não somos inteligentes?

Pr. Charles

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