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23 junho 2010

Desisto de Buscar uma Identidade!

Recentemente ouvi que o evangelicalismo brasileiro precisa de identidades que caracterizem os diversos modos de agir e pensar. Tão logo ouvi isso, passei a tentar encontrar minha identidade como evangélico brasileiro.

De cara percebi que o termo "evangélico" carece de uma identificação mais específica, porque tanto pode significar "membro de uma igreja evangélica histórica" como "participante de movimento evangélico pentecostal". De repente, me lembrei que existem os neopentecostais, que também são tidos como evangélicos, embora não precise ir pelo caminho do pentecostalismo ou do neopentecostalismo, porque me considero histórico. Mas o crente membro de uma igreja histórica tem de ser pentecostal, porque a igreja recebeu a dynamis do Espírito Santo para testemunhar no dia de Pentecostes, conforme Lucas narra em Atos 2.1-4. Então posso dizer que sou um evangélico histórico pentecostal no sentido histórico-redentivo do termo, e não no sentido eclesiológico contemporâneo assumido após o "avivamento da Rua Azuza" em 1906 em Los Angeles.

Acho que consegui sair do marco zero nessa caminhada rumo à busca da minha identidade, mas ainda há algo nela que não está claro. Eu sou um evangélico histórico pentecostal no sentido histórico-redentivo do termo, mas o evangelicalismo histórico possui várias vertentes que certamente causariam alguma confusão se parasse por aí. No que diz respeito à minha posição soteriológica, alguém não saberia dizer se sou arminiano, pelagiano ou calvinista (reformado), se eu simplesmente dissesse que sou evangélico histórico pentecostal no sentido histórico-redentivo do termo. Se o arminianismo crê na graça preveniente que capacita o homem a naturalmente crer em Cristo, dependendo de sua vontade, então certamente não sou arminiano. Por outro lado, também não sou pelagiano, porque não creio que o homem nasce neutro e em algum momento de sua existência escolhe o pecado. Sou um calvinista, porque parto do pressuposto de que Deus, como soberano absoluto sobre todas as coisas, decretou tudo o que acontece preordenando todos os eventos da história conforme o conselho da sua vontade, para o louvor de sua glória, evidenciando sua bondade e amor nos escolhendo antes da fundação do mundo para sermos santos e irrepreensíveis.

Acho que consegui andar mais uma milha nesta busca pela minha identidade de evangélico brasileiro. Sou evangélico histórico calvinista pentecostal no sentido histórico-redentivo do termo. Mas espere um pouco. O termo "calvinista" não diz muita coisa. Um calvinista pode ser aliancista ou dispensacionalista. Deixe-me ver: um dispensacionalista promoveria uma dicotomia entre a igreja do NT e Israel. Israel é Israel; igreja é igreja. Além do mais, um dispensacionalista defenderia uma divisão da história da revelação em sete dispensações. Mas a Bíblia mesma se auto-estrutura em alianças, sendo que elas constituem uma e a mesma aliança, que é um pacto, um laço de vida e amor soberanamente administrado, que apenas é renovado e continuado ao longo da história da redenção. Se esta é visão aliancista, então me enquadro nela acrescentando-a à minha identidade de evangélico brasileiro. Portanto, sou evangélico histórico calvinista aliancista pentecostal no sentido histórico-redentivo do termo.

Acabo de trazer à memória que o termo aliancista não resolve muita coisa. É possível que alguém não esteja certo se sou aliancista, porém pré-milenista quanto à compreensão escatológica. Além disso, é possível alguém ainda ser pós-milenista ou amilenista dentro da mesma visão da Bíblia como estruturada em alianças. Vamos à luta novamente. Se eu disser que sou pré-milenista, precisa ficar claro se sou histórico ou dispensacionalista. Como já sei que não posso ser identificado como dispensacionalista, por causa do arrazoado anterior, então eu poderia ser pré-milenista histórico. Espere um pouco: o pré-milenismo defende que Jesus voltará para reinar durante 1000 anos literais para então depois inaugurar o Novo Céu e a Nova Terra após o Juízo Final. Mas por que Jesus teria de reinar por 1000 anos aqui neste mundo se ele mesmo afirmou que seu reino não era daqui? Acho que não posso caminhar lado a lado com os pré-milenistas históricos. Só me restou agora o pós-milenismo e o amilenismo. Ouvi dizer que os pós-milenistas se dividem em preteristas e futuristas. Os preteristas são aqueles que acreditam que o sermão profético de Jesus em Mateus 24 se cumpriu em parte ou no todo no ano 70 d.C., com a destruição do templo. Mas admitir que sou preterista não resolve o problema da minha identidade. Os preteristas, por sua vez, podem ser classificados como moderados e radicais. Os moderados crêem que algumas profecias se cumpriram no ano 70, como a Grande Tribulação e as "guerras e rumores de guerras". Outras profecias, como a da ressurreição de justos e injustos e o Novo Céu e a Nova Terra ainda não. Já os radicais afirmariam, com base em Mateus 24.34, que o sermão escatológico de Cristo se cumpriu cabalmente no ano 70 d.C.. Mas e a ressurreição dos justos e injustos? Definitivamente, não sou preterista radical. Mas o problema da minha identidade ainda carece de maiores esclarecimentos, afinal, ainda posso ser identificado com um preterista moderado. Nesse caso, recorrendo ao Apocalipse de João, vejo acontecimentos preditos no sermão escatológico como ainda futuros. Levando-se em consideração que o livro de Apocalipse foi escrito na década de 90 d.C. até o ano 100, aproximadamente, então estou propenso a ser futurista mesmo. Então resta a dúvida: sou pós-milenista futurista ou amilenista? Se eu disser que sou pós-milenista, então terei de compreender que haverá um período de paz e segurança por um período longo e indefinido anterior à volta de Cristo, que seria o período da reinado milenar de Cristo. Mas a Escritura afirma que Jesus está assentado à destra da majestade nas alturas, o que lhe confere posição de realeza, e que toda autoridade no céu e na terra lhe foram dadas. Jesus já reina e seu reino somente crescerá; jamais terá fim, conforme profetizado por Daniel. Se creio que Jesus reina desde sua exaltação após a ressurreição, então sou amilenista. Mas que termo infeliz, "amilenista"! Parece que não creio no milênio! Mas creio sim; é bíblico. Mas que termo poderia usar? "Milenista não-literalista pré-tribulacionaista"? Prefiro o "amilenista" mesmo, embora não seja o melhor. Então descobri agora que sou evangélico histórico calvinista aliancista amilenista pentecostal no sentido histórico-redentivo do termo.

Ainda há uma questão que precisa ser respondida para que eu seja corretamente identificado como evangélico brasileiro. É que ainda não ficou claro se sou de uma linha liberal, moderada ou fundamentalista. Vejamos, um liberal prefere crer naquilo que é experimental e natural, excluindo-se o sobrenatural. Além disso, um liberal diria que a Bíblia contém a Palavra de Deus e, por esta razão, é necessário que se descubra por meio da alta crítica o que os autores realmente disseram a fim de pôr-se de lado o que é registro das fábulas, lendas e crendices da igreja e do povo de Israel. Não creio nisso. Ao contrário, creio que a Bíblia é inspirada por Deus, infalível e inerrante, "porque nunca jamais qualquer profecia foi dada por vontade humana, entretanto, homens santos falaram da parte de Deus movidos (literalmente, "carregados") pelo Espírito Santo" (2Pe 1.21). Os moderados, ao lerem isso, diriam que sou fundamentalista. Os liberais acrescentariam (ainda que com impropriedade semântica e etimológica) "xiita". Quanto aos moderados, bem, só eles mesmos acham que são moderados, quando pendem mesmo é para o liberalismo ou néo-liberalismo. Então sou evangélico histórico calvinista aliancista amilenista fundamentalista (xiita para os liberais) pentecostal no sentido histórico-redentivo do termo.

Estou começando a ficar preocupado com esta jornada em busca da minha identidade. Onde isso vai parar? Ainda mais quando me lembro que preciso definir meu perfil como adorador. Sabemos que o evangelicalismo vem admitindo práticas da maior diversidade no culto público. Se o adorador sente-se à vontade diante de uma apresentação coreográfica depois de 1 hora e meia de cânticos de guerra e de mensagens de auto-ajuda, então ele pode ser chamado de "aberto liturgicamente". Mas se ele adorar a Deus priorizando a reverência e santo temor, esforçando-se por prestar-lhe culto racional centralizado na mediação de Cristo e em sua Palavra, buscando a ordem e a decência, não admitindo as manifestações físicas exteriores destinadas ao entretenimento do adorador, então será chamado de conservador ou tradicional. Agora tenho uma noção melhor de quem sou como evangélico brasileiro: evangélico histórico calvinista aliancista amilenista fundamentalista (xiita para os liberais) conservador pentecostal no sentido histórico-redentivo do termo.

E quanto ao sistema de governo eclesiástico? Ainda não está claro se sou darbista (que não concebe a idéia de ministério pastoral); se sou congregacional, que prefere que o governo seja exercido pela assembléia dos membros da igreja; se sou episcopal, com governo centralizado em indivíduos postos hierarquicamente; ou finalmente se sou presbiteriano, cujo governo é conciliar exercido por presbíteros. Isso sem falar dos atuais sistemas que surgem a cada novo líder carismático, como "igreja em células", "ministérios", projetos "desperta isso", "desperta aquilo", "levitas aquilo outro". Não quero complicar. Sou presbiteriano convicto porque em Atos 15 a igreja se reuniu de forma conciliar com presbíteros representantes das igrejas e os apóstolos, tomaram uma decisão e a baixaram às igrejas locais que acataram reconhecendo a autoridade do sistema. Além disso, Paulo disse a Timóteo que ele recebera autoridade mediante imposição das mãos do presbitério. Agora estou ficando atordoado, pois descobri que sou evangélico histórico calvinista aliancista presbiteriano amilenista fundamentalista (xiita para os liberais) conservador pentecostal no sentido histórico-redentivo do termo.


Mas a pressão da atualidade me impõe a obrigação de me posicionar diante da teologia relacional. Esta concebe um deus (a letra minúscula é proposital) que não conhece o futuro, não pode alterá-lo nem mexer na vontade humana. Um deus menos deus e mais humano; menos perfeito e mais limitado; menos soberano e mais dependente das ações das criaturas. Não posso concordar com tal posicionamento. Mas há outras alternativas: posso ser panteísta, se eu enfatizar a imanência de Deus a despeito de sua transcendência. Posso também ser deísta, se eu me concentrar apenas na transcendência de Deus em prejuízo de sua imanência. De fato, o meu Deus é transcendente, porque escapa ao meu frágil entender; afinal, ele é o Alto, o Sublime, que habita no alto céu, mas também é aquele que habita com o abatido e contrito. Creio que Deus governa todas as coisas em sua providência de forma a compatibilizar sua soberania com a responsabilidade humana. Portanto, sou teísta, mas para me distinguir do teísmo aberto, eu deveria ser identificado como evangélico histórico calvinista aliancista presbiteriano teísta fechado compatibilista fundamentalista (xiita para os liberais) conservador pentecostal no sentido histórico-redentivo do termo.

Ainda há muito para percorrer nesta jornada. Não está claro se sou cessacionista, contemporalista, puritano, menonita, confessionalista, culturalista, autoctonista, socialista, sócio-democraticista, teocraticista, chauvinista, adocionista, legalista, antinomista, transubstancionista, memorialista, tradicionalista, hipercalvinista, anabatista, imersionista, aspercionista, pedobatista, pedoeucaristista, osculista, lavapecionista e quantos "istas" você puder listar a partir do evangelicalismo brasileiro.

Enfim, desisto de esgotar a jornada pela afirmação de minha identidade de evangélico brasileiro. Agora estou pasmado diante de tantos predicados classificatórios e qualificantes de minha identidade evangelical necessários para uma boa compreensão de que tipo de crente eu sou. Bem que tudo poderia ter sido mais fácil se minha identificação com Cristo (porque ele é meu irmão primogênito com quem devo ser parecido) ficasse claramente evidente somente com a designação "cristão"!

Rev. Charles Melo de Oliveira

12 comentários:

Milton Jr. 23 de junho de 2010 20:09  

Grande Charles,
me diverti a valer com seu post, muito bom. Só não concordo que existam calvinistas dispensacionalistas... isso sim é conto da carochinha.. ahahahah
grande abraço,

Milton Jr.

Carlos del Pino 24 de junho de 2010 02:36  

Oi Charles,
Excelente iniciativa, parabéns!!
Um forte abraço,

Carlos del Pino

Lucas Ferreira de Paula 24 de junho de 2010 04:22  

Parabéns pelo blog e pelo texto pastor, passarei a lê-lo com frequência, e gostaria de convidá-lo a ler o meu tb, se o senhor puder, e fazer comentários, é claro...rs

abços

Ligian 24 de junho de 2010 05:46  

Eu sou fã desse post...
E o evangelho é tão simples, não é mesmo?!

Lucas Ferreira de Paula 24 de junho de 2010 05:50  

pois é ligian, tb concordo, penso eu, q qnto mais simples somos, mais fiéis a msg de Cristo tb somos. abços

Laercio 24 de junho de 2010 06:57  

Charles, você quer me deixar maluco??????

Excelente texto. Deus abençoe sua vida.

Laércio

Cláudio Renato 24 de junho de 2010 10:47  

Pensei que vc fosse tricolor (torcedor do Fluminense)!!!

Charles 24 de junho de 2010 20:01  

Milton,

A orelha do John MacArthur Jr. deu uma esquentadinha... (eheheh) Obrigado pelo incentivo!

Abraço!
Charles

Charles 24 de junho de 2010 20:03  

Graaande Carlos Del Pino

Obrigado! Não se esqueça que estamos aguardando ansiosamente a sua vinda em setembro!

Abraço!
Charles

Charles 24 de junho de 2010 20:05  

Lucas,

Que bom que você entrou e deixou um comentário tão encorajador. Espero corresponder à altura de sua inteligência e interesse pela obra de Deus!

Abraço!
Charles

Charles 24 de junho de 2010 20:08  

Cláudio,

Minha identidade de tricolor carioca pertence a outra esfera de evangelicalismo: o sacrossanto mundo do futebol. Nessa esfera estou num nível tão alto de santidade quem nem convém relatar a glória a um vascaíno (eheh).

Saudade de vocês!
Charles

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